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O que é Gota?

A gota é uma doença inflamatória que acomete sobretudo as articulações e ocorre quando a taxa de ácido úrico no sangue está em níveis acima do normal (hiperuricemia). A gota também pode ser chamada de Doença dos Reis.

A apresentação clínica da gota é bastante variável, pois são possíveis diferentes combinações destas manifestações, ou seja, um paciente pode apresentar somente crises agudas de artrite, outro, além destas, depósitos dos cristais e/ ou alterações de função renal ou cálculos renais. (1,2)

O ácido úrico é uma substância normalmente presente no nosso organismo que surge da degradação de um tipo de aminoácido, chamado purina, encontrado em vários alimentos. Depois de ser degradam, as purinas são transformadas em ácido úrico, uma parte dele permanece no nosso organismo e o restante é excretado pelos rins.

Os homens têm mais ácido úrico que as mulheres, sendo este o motivo de uma prevalência maior da gota em homens. Além disso, é sabido que o estrógeno (hormônio feminino) tem efeito uricosúrico (aumenta a perda de ácido úrico pelos rins), sendo este um dos motivos da gota ser rara na mulher antes da menopausa.

Há registros dessa doença desde muitos séculos antes de Cristo, época em que era conhecida como “enfermidade dos patrícios”. Houve uma epidemia de gota na Roma Antiga e também na Inglaterra Vitoriana entre os séculos XVII e XIX, que durou aproximadamente 200 anos. Acredita-se que a intoxicação pelo chumbo, presente nos alimentos e no vinho, tenha sido a causa da epidemia de gota que se disseminou entre os habitantes. Isso se deve porque o excesso de chumbo interfere na excreção de ácido úrico pelos rins.

Como na época a gota estava muito relacionada à alimentação farta e não havia medicamentos que reduzissem as quantidades de ácido úrico no organismo, há registros de gota em grandes nomes da História - como Alexandre, o Grande, Henrique VIII, Carlos Magno, Voltaire, Leonardo Da Vinci, Charles Darwin e Isaac Newton. Também por isso que a gota foi, durante muitos anos, associada ao pecado capital da gula.

Tipos

A gota pode ser dividida em dois tipos:

A gota primária é causada por um erro inato do metabolismo das purinas (um defeito enzimático específico), caracterizado pela superprodução de ácido úrico e/ ou por defeito na excreção renal de urato, sendo este último o tipo mais comum.

A gota secundária é aquela que surge durante o desenvolvimento de outras doenças (ex: leucemias, linfomas, drepanocitose, outras anemias hemolíticas, psoríase, hiperparatireoidismo, insuficiência renal, estados de hiperinsulinemia ou resistência a insulina), ou com o uso de alguns medicamentos (ex: diuréticos, salicilatos em doses baixas, L-dopa, pirazinamida, etambutol, quimioterápicos, ciclosporina, tacrolimus) ou quando o indivíduo está exposto à dieta rica em purinas, em estado de inanição ou desidratação grave. (2)

A gota pode ser divida também em três fases:

A fase de artrite gotosa aguda (gota aguda) habitualmente manifesta-se na quarta década de vida com uma crise súbita de dor articular, geralmente com comprometimento de uma única articulação, associada a calor, rubor e edema locais. A articulação mais acometida é a primeira metatarsofalangeana do primeiro dedo do pé (“dedão”), mas pode acometer as outras articulações dos outros dedos do pé, do dorso do pé, tornozelos, joelhos, punhos, mãos ou cotovelos.

Durante a crise aguda de gota, podem ocorrer febre e calafrios, neste caso é importante uma cuidadosa avaliação para afastar infecção associada. A duração da crise aguda da gota varia de horas a poucos dias. Finalizada a crise aguda de gota, o paciente passa para a fase de período intercrítico, durante esta ele se mantém assintomático.

O período intercrítico tem duração bastante variável. Um segundo ataque de crise de gota pode acontecer entre seis meses ou mesmo 10 anos, mas na maioria das vezes acontece entre seis e 24 meses após a primeira crise.

Crises agudas de gota não tratadas ou tratadas de forma inadequada tendem a favorecer ataques subsequentes mais graves e prolongados e a reduzir o período intercrítico, consequentemente os sintomas não se resolvem completamente, havendo o comprometimento de mais de uma articulação, passando-se para a fase de gota crônica.

Na fase de gota crônica, os períodos livres de sintomas desaparecem, o paciente apresenta quadro de dor contínua em mais de uma articulação associada a outros sinais de inflamação, como edema e calor, que levam a deformidades, e surgem os tofos (nódulos resultantes do acúmulo de cristais de ácido úrico). Geralmente, os tofos são indolores, podem surgir em várias partes do corpo, limitar a mobilidade da articulação perto da qual se localizam ou ulcerar e drenar uma secreção que lembra pó de giz molhado.

Durante toda a evolução da gota, o aumento do ácido úrico no sangue (hiperuricemia) pode causar dano aos rins. A deposição crônica de urato nos rins pode levar a perda de função renal e formação de cálculos renais. Sabe-se que homens com gota têm duas vezes mais chance de ter cálculos renais do que homens sem gota. (4)

Causas

A gota é causada pela presença de níveis mais altos do que o normal de ácido úrico na corrente sanguínea. Isso pode ocorrer se o corpo produzir ácido úrico em excesso ou se o tiver dificuldade de eliminar o ácido úrico produzido.

Quando essa substância se acumula no líquido ao redor das articulações (líquido sinovial), são formados cristais de ácido úrico. Esses cristais causam inchaço e inflamação nas articulações. A causa exata da gota, no entanto, é desconhecida.

Cerca de 40% dos pacientes com gota apresentam histórico familiar desta doença, o que nos permite afirmar que há uma influência genética significativa, porém outros fatores determinam a expressão da doença, são relevantes: (2)

  • Dieta
  • Consumo de álcool
  • Uso de algumas medicações
  • Presença de outras doenças.

Uma combinação de predisposição genética e dos fatores de risco já identificados é que influenciam os mecanismos moleculares de metabolização de urato e inflamação induzida por cristais de urato. Contudo, a causa exata da gota é desconhecida.

Fatores de risco

  • Histórico familiar, uma vez que a doença pode ser genética
  • Sexo: gota é mais comum em homens
  • Mulheres após a menopausa
  • Ingestão excessiva de álcool
  • Uso de determinados medicamentos diuréticos
  • Hipertensão
  • Diabetes
  • Colesterol alto
  • Altos níveis de gordura corporal
  • Arteriosclerose.

Sintomas de Gota

Os sinais de gota são quase sempre agudos, podendo ocorrer de repente, principalmente à noite, e sem nenhum aviso. Entre eles estão:

  • Dor intensa nas articulações dos pés, tornozelos, joelhos, mãos e pulsos. Essa dor é geralmente mais forte nas primeiras 12 a 24 horas
  • Após o pico de dor, deve restar um certo desconforto nas articulações, que pode durar alguns dias e, em alguns casos, até mesmo algumas semanas
  • Inflamações e vermelhidão na região das articulações afetadas, com presença de suor.

Depois do primeiro ataque de gota, as pessoas não apresentam sintomas. Metade dos pacientes sofre outro ataque.

Algumas pessoas podem desenvolver gota crônica. Aqueles que sofrem de artrite crônica desenvolvem lesões e perda de movimento das articulações. Nesses casos, o paciente apresenta dor nas articulações e outros sintomas a maior parte do tempo.

Outro sintoma de gota são os tofos, caroços sob a pele ao redor das articulações ou em outros lugares. Eles podem drenar material calcário. Geralmente, os tofos se desenvolvem em pacientes que convivem por muitos anos com a doença.

Buscando ajuda médica

Procure a ajuda de um especialista se você:

  • Sentir dor repentina nas articulações
  • Apresentar febre
  • Sentir queimação na região de articulações

Na consulta médica

Especialistas que podem diagnosticar a gota são:

  • Clínico geral
  • Reumatologista

Estar preparado para a consulta pode facilitar o diagnóstico e otimizar o tempo. Dessa forma, você já pode chegar à consulta com algumas informações:

  • Uma lista com todos os sintomas e há quanto tempo eles apareceram
  • Histórico médico, incluindo outras condições que o paciente tenha e medicamentos ou suplementos que ele tome com regularidade.

O médico provavelmente fará uma série de perguntas, tais como:

  • Em quais partes do corpo você está sentido dor?
  • Quando os sintomas começaram?
  • Os sintomas são recorrentes ou contínuos?
  • Você tem algum parente com histórico de gota?
  • Você consome bebidas alcóolicas? Com que frequência e em quais quantidades?
  • Como é sua alimentação durante o dia?

Também é importante levar suas dúvidas para a consulta por escrito, começando pela mais importante. Isso garante que você conseguirá respostas para todas as perguntas relevantes antes da consulta acabar. Algumas perguntas básicas incluem:

  • O que está causando os sintomas?
  • Quais testes eu preciso fazer?
  • A minha condição é temporária ou crônica?
  • Qual o tratamento que você recomenda?

Não hesite em fazer outras perguntas, caso elas ocorram no momento da consulta.

Diagnóstico de Gota

O médico realizará um exame físico para analisar as articulações em que há dor e, depois, fará perguntas sobre o histórico médico do paciente e de sua família, a fim de encontrar vestígios de gota.

Exames

O médico poderá te pedir alguns exames, como:

  • Análise de líquido sinovial (exame que revelará cristais de ácido úrico)
  • Exames para medir a quantidade de ácido úrico no sangue e na urina
  • Raio-X da articulação
  • Biópsia sinovial

Atenção: nem todas as pessoas com altos níveis de ácido úrico no sangue têm gota.

Tratamento de Gota

Os medicamentos devem ser tomados o mais rápido possível se você sofrer um ataque de gota súbito.

  • Use anti-inflamatórios assim que aparecerem os sintomas da gota. Consulte o seu médico sobre a dose correta. Você talvez precisará de doses mais fortes por alguns dias
  • O médico poderá prescrever analgésicos fortes para as dores
  • O especialista poderá prescrever também alguns medicamentos que ajudem a reduzir a dor, o inchaço e a inflamação
  • Os corticoides também podem ser muito eficazes. O médico pode injetar esteroides na articulação inflamada para aliviar a dor
  • Em geral, a dor diminui dentro de 12 horas após o início do tratamento e desaparece completamente em 48 horas
  • O uso diário de alguns remédios também diminui os níveis de ácido úrico no sangue. O médico poderá prescrever esses medicamentos se o paciente tiver vários ataques durante o mesmo ano ou se os seus ataques forem muito graves, se o paciente tiver lesões nas articulações, tofos e cálculos renais de ácido úrico.

O uso de compressas de gelo nas crises de gota e a mudança de hábitos alimentares, evitando-se aqueles ricos em proteína animal e aumentando o consumo de vegetais, verduras e frutas, leite e derivados auxiliam no tratamento da gota.

Faz parte da cultura popular o uso de chás e infusões com cúrcuma, cavalinha, abacaxi, cereja, gengibre e pepino para controle da crise aguda e prevenções. (2)

O cuidado na alimentação das pessoas com hiperuricemia deve ser uma prioridade, já que vários alimentos são fontes de purinas que entram na formação do ácido úrico.

Portanto, que sofre com gota não deve consumir:

  • Bebidas alcoólicas: principalmente cerveja
  • Vísceras: coração de galinha, rim, fígado, moelas, miolo
  • Peixes
  • Frutos do mar
  • Enlatados e conservas
  • Defumados
  • Carnes vermelhas e gordas

E existem alimentos e nutrientes que oferecem uma certa proteção contra o desencadeamento da gota e deveriam fazer parte da estratégia alimentar dos pacientes com maior risco:

  • Vegetais
  • Leite e derivados desnatados
  • Café
  • Cerejas
  • Alimentos fontes de vitamina C, como as frutas cítricas.

Cirurgias para Gota

Quando o paciente com gota apresenta dificuldade para andar devido à compressão do nervo peroneal, uma cirurgia simples pode ser indicada. O objetivo do procedimento é melhorar a capacidade da pessoa de caminhar e realizar outras atividades. (4)

Medicamentos para Gota

Os medicamentos mais usados para o tratamento de gota são:

  • Alopurinol
  • Androcortil
  • Beserol
  • Betametasona
  • Butazona Cálcica
  • Bi Profenid
  • Cataflam
  • Celestone
  • Cetoprofeno
  • Colchis
  • Dexalgen
  • Diclofenaco Colestiramina
  • Diclofenaco sódico
  • Feldene
  • Fenaflan D
  • Flancox
  • Flotac
  • Ibupril 300mg
  • Ibupril 600mg
  • Infralax
  • Mioflex A
  • Naproxeno
  • Nimesulida
  • Prednisolona
  • Prednisona
  • Profenid
  • Tandrilax
  • Torsilax.

Somente um médico pode dizer qual o medicamento mais indicado para o seu caso, bem como a dosagem correta e a duração do tratamento. Siga sempre à risca as orientações do seu médico e NUNCA se automedique. Não interrompa o uso do medicamento sem consultar um médico antes e, se tomá-lo mais de uma vez ou em quantidades muito maiores do que a prescrita, siga as instruções na bula.

Gota tem cura?

O tratamento adequado dos ataques agudos de gota permite que as pessoas tenham uma vida normal. Entretanto, a forma aguda da doença pode progredir para gota crônica.

Complicações possíveis

Gota não tratada pode evoluir para complicações mais sérias, como:

  • Artrite gotosa crônica
  • Recorrência da doença
  • Cálculos renais
  • Depósitos nos rins, levando à insuficiência renal crônica

Convivendo/ Prognóstico

Algumas dietas e mudanças no estilo de vida ajudam a evitar ataques de gota e facilitam a eficácia do tratamento. Siga algumas dicas e tenha um bom prognóstico:

  • Evite álcool
  • Reduza a quantidade de alimentos ricos em purina
  • Limite a quantidade de carne ingerida em cada refeição
  • Evite comidas gordurosas, como molhos para saladas, sorvete e frituras
  • Coma uma quantidade suficiente de carboidratos
  • Se estiver de dieta, emagreça lentamente. A perda rápida de peso pode provocar a formação de cálculos renais de ácido úrico.

Prevenção

O distúrbio em si pode não ser prevenido, mas você pode evitar itens que desencadeiam os sintomas. Limite o consumo de álcool e de alimentos gordurosos, bem como de carnes e peixes, e beba muita água.

(1) Sociedade Brasileira de Reumatologia

(2) Dra. Ana Beatriz Azevedo, reumatologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo

(3) Mayo Clinic

(4) American Orthopaedic foot & ankle society (AOFAS)

*As informações e sugestões contidas neste site têm caráter meramente informativo.
*Elas não substituem o aconselhamento e acompanhamentos do profissional da saúde.